Uma opinião sobre os hábitos de condução e estacionamento que tornam as ruas do concelho cada vez menos seguras para quem vai a pé.
Vivo em Oeiras há quatro anos. Vim de outro país, habituei-me à vila, ao rio, ao Passeio Marítimo, à qualidade de vida que o concelho oferece. Mas há uma coisa que, desde o primeiro dia, nunca deixou de me surpreender — e não da boa forma: a relação que muitos condutores têm com o espaço público partilhado.
Passadeiras que ninguém respeita
Uma passadeira, em teoria, é um espaço de prioridade para o peão. Na prática, em Oeiras, atravessar uma passadeira continua a ser um acto de fé. Os carros não param. Alguns abrandam ligeiramente — como quem faz um favor — mas parar de verdade, esperar que o peão atravesse com tranquilidade, isso é raro. Quem chega de países com culturas de mobilidade mais avançadas olha para isto com genuína perplexidade.
Quando andei de muletas — e perdi o medo de dizer isto
Há cerca de um ano sofri uma lesão que me obrigou a andar de muletas durante vários meses. Foi nessa altura que o problema deixou de ser uma observação e se tornou uma experiência física, diária e por vezes assustadora.
Ter de contornar carros estacionados em cima do passeio com muletas não é apenas inconveniente — é perigoso. Significa descer para a faixa de rodagem, equilibrar-me no alcatrão irregular, torcer para que nenhum carro apareça em velocidade. E as passadeiras, que deveriam ser o momento de alívio, tornaram-se a parte mais stressante de qualquer saída: atravessar o mais depressa possível, com medo de ser atropelado, mesmo quando os condutores podiam ver claramente que eu estava com muletas.
Alguns paravam. A maioria não. E foi nesse momento que percebi que o problema não é apenas de conveniência — é de dignidade e de segurança para quem mais precisa de protecção no espaço público.
Carros estacionados em cima do passeio — literalmente
O estacionamento em cima dos passeios é talvez o exemplo mais visível de como o espaço pedonal é tratado como uma extensão do parque de estacionamento. É comum, é habitual, é quase normalizado. O resultado é que quem vai a pé — idosos, pais com carrinhos de bebé, pessoas com mobilidade reduzida — é empurrado para a faixa de rodagem. O passeio existe, mas está ocupado por um carro. E o carro ganhou.
O mesmo acontece nas passadeiras: estacionar mesmo em cima delas, bloqueando a visibilidade e o acesso, não é excepção — é rotina em muitas ruas do concelho.






Piscas? Para quê?
Os piscas existem nos carros. Simplesmente muitos condutores optam por não os usar. Virar à esquerda, à direita, entrar numa rotunda, sair de um parque de estacionamento — tudo isto acontece frequentemente sem qualquer sinalização. Para quem caminha ou pedala, esta imprevisibilidade é um risco real e diário.
A velocidade que ninguém controla
Nas zonas residenciais, nos arruamentos junto às escolas, nas ruas mais estreitas — a velocidade excessiva é uma constante. Não estamos a falar de condutores em estradas nacionais: estamos a falar de ruas onde as crianças brincam, onde os idosos passeiam, onde há vida quotidiana. E onde um carro a passar a 60 km/h numa zona de 30 é, infelizmente, algo perfeitamente banal.
Quatro anos em Oeiras — e nunca vi uma multa
Há um detalhe que me continua a surpreender, e que talvez explique muito do que foi descrito acima: em quatro anos a viver em Oeiras, nunca assisti a um agente da autoridade — seja da PSP, seja da Polícia Municipal — a autuar um condutor por estacionamento indevido. Nunca vi um carro em cima do passeio a receber uma multa. Nunca vi fiscalização activa nas zonas onde o problema é mais evidente.
Isto não é uma acusação às forças de segurança — é uma constatação. E é uma constatação importante, porque a ausência de consequências é, ela própria, uma mensagem. Quando um condutor estaciona em cima de uma passadeira durante meses sem que nada aconteça, a conclusão que tira é simples: pode continuar. E continua.
A fiscalização não resolve tudo — mas a sua ausência resolve ainda menos.
Não é uma crítica a Oeiras — é um apelo
Oeiras é um concelho com muito investimento em qualidade de vida: ciclovias, passeios renovados, o Passeio Marítimo, os parques. Mas toda essa infraestrutura perde parte do seu valor quando a cultura de mobilidade não acompanha. De pouco serve um passeio novo se está ocupado por carros. De pouco serve uma passadeira bem sinalizada se os condutores não param — e se ninguém os multa quando bloqueiam o acesso.
A experiência de andar de muletas mostrou-me o que muitos oeirenses vivem todos os dias sem que ninguém fale nisso: idosos, pessoas com deficiência, pais com carrinhos de bebé — todos a navegar um espaço público que foi desenhado para eles mas que, na prática, pertence aos carros.
Não se trata de perseguir ninguém. Trata-se de partilhar o espaço com respeito — e de garantir que quem mais precisa de protecção não tem de correr para atravessar uma passadeira com medo de ser atropelado.
Entretanto, cá estarei, a atravessar passadeiras com cuidado e a caminhar pelo alcatrão porque o passeio está ocupado por mais um carro mal estacionado.
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