Muito antes do Marquês de Pombal, muito antes dos romanos e dos mouros, muito antes de qualquer memória escrita — Oeiras já era habitada. A prova está em Barcarena, num lugar chamado Leceia, onde os vestígios de um dos mais extraordinários povoados pré-históricos da Península Ibérica resistiram ao tempo e chegaram até nós.
Um povoado com 5.000 anos no coração de Oeiras
O Castro de Leceia, também conhecido como Povoado Calcolítico de Leceia, situa-se no alto da encosta direita sobre o vale da Ribeira de Barcarena — num ponto privilegiado que domina visualmente a entrada da Barra do Tejo. As primeiras ocupações humanas do local remontam ao Neolítico Final da Estremadura, entre 3.300 e 2.900 anos antes de Cristo.
Depois de um curto período de abandono, logo no início do Calcolítico — a Idade do Cobre —, o local foi reocupado e transformado num complexo e sofisticado sistema defensivo que impressiona até hoje.
Uma fortaleza engenhosa com três linhas de muralhas
O que torna Leceia verdadeiramente fascinante é a sofisticação da sua arquitectura defensiva. No início do Calcolítico, foi construído um complexo dispositivo de defesa organizado em três linhas de muralhas concêntricas, reforçadas exteriormente por bastiões semicirculares e articuladas com duas importantes escarpas naturais pré-existentes.
A lógica era simples e eficaz: quem tentasse atacar o povoado pelo único lado acessível — o mais plano — deparava com um obstáculo atrás do outro, até ao último reduto no topo do penhasco. Algumas das torres exteriores tinham entradas pelo exterior sem ligação ao interior, numa possível estratégia para confundir e apanhar os atacantes em armadilha.
A ocupação pré-histórica do local prolongou-se até cerca de 2.200 anos antes de Cristo, quando o castro foi definitivamente abandonado com o início da Idade do Bronze.

O que revelaram as escavações
Os primeiros trabalhos arqueológicos em Leceia tiveram início ainda no século XIX, por Carlos Ribeiro. Mas foi com as escavações lideradas pelo Prof. Doutor João Luís Cardoso, entre 1983 e 2002 — vinte anos de trabalhos de campo contínuos —, que o povoado revelou a sua verdadeira dimensão.
As escavações puseram a descoberto estruturas habitacionais e defensivas de diversas épocas, bem como um rico espólio de artefactos: pontas de seta, lâminas de foice, lâminas e raspadores de sílex, mós, machados, enxós, percutores e anzóis de cobre.
Estes objectos contam a história de uma comunidade que praticava agricultura, pecuária, caça, pesca e recolha de moluscos ao longo do litoral estuarino — e que desenvolveu progressivamente a cerâmica e a metalurgia do cobre.
Um investigador, cinco décadas de dedicação
A história de Leceia é também a história de um homem que lhe dedicou a vida. O Prof. Doutor João Luís Cardoso, arqueólogo e professor catedrático da Universidade Aberta, coordenou o Centro de Estudos Arqueológicos do Concelho de Oeiras (CEACO) e dedicou mais de cinquenta anos ao estudo deste sítio arqueológico.
Em 2023, a Câmara Municipal de Oeiras distinguiu-o com o Prémio de Arqueologia Prof. Doutor Octávio da Veiga Ferreira, atribuído pela Academia Portuguesa da História, pela obra “O povoado pré-histórico de Leceia: cinquenta anos de trabalhos arqueológicos (1972-2022)” — um testemunho da dimensão científica deste sítio e do trabalho que lhe foi dedicado.
No mesmo ano, o professor participou no programa “Conversas Abertas na Universidade”, transmitido na RTP2, onde partilhou com o grande público a história fascinante deste povoado.

Onde ver os artefactos de Leceia
Não é preciso ir até ao sítio arqueológico para ter um primeiro contacto com Leceia. Na Fábrica da Pólvora de Barcarena existe uma Exposição Monográfica do Povoado Pré-Histórico de Leceia com os artefactos descobertos nas escavações e uma maqueta do povoado que recria o seu aspecto original.
O município produziu ainda um filme de animação — “Leceia 2500 a.C.” — que recria o quotidiano dos habitantes do castro durante a época Calcolítica, tornando a história acessível a todas as idades.
Como visitar o Castro de Leceia
O sítio arqueológico está aberto a visitas, mas por se tratar de uma área complexa e de difícil interpretação, as visitas são sempre guiadas e requerem marcação prévia, com acompanhamento de um técnico especializado do CEACO, que adapta as explicações ao perfil dos visitantes — crianças, adultos ou seniores.
Escolas: através do Portal Oeiras Educa, às quintas-feiras Particulares: grupos de 10 ou mais pessoas mediante marcação. Visitantes individuais podem associar-se a grupos existentes.
📞 214 408 432 📧 [email protected]
📍 Rua 7 de Junho, Leceia
🗺️ GPS: 38°43’41.16″N; 9°16’54.08″W
🕐 Segunda a sexta: 9h00 às 17h30
Como chegar de transportes públicos (Carris Metropolitana):
- Linha 1520: Algés (Terminal) – Cacém, saída Leceia
- Linha 1601: Amadora Este (Metro) – Carcavelos, saída Leceia
- Linha 1602: Carcavelos – Queluz, saída Leceia
- Linha 1731: Cacém – Hospital São Francisco Xavier, saída Leceia
A próxima vez que passar por Barcarena, lembre-se: está a poucos passos de um lugar onde pessoas viveram, amaram, trabalharam e lutaram há mais de cinco mil anos. Oeiras tem essa magia — e Leceia é a sua prova mais antiga.





















