O concelho de Oeiras pode vir a acolher, em pleno Taguspark, a sede e boa parte das operações do INEM, um dos maiores centros de resposta de emergência de Portugal. A transferência de serviços de Lisboa para Oeiras é defendida pela administração do instituto como forma de aproximar a coordenação do INEM do Centro Operacional do Sul (COSUL), mais conhecido como centro 112 da PSP.
Para muitos empresários e entidades locais, a chegada do INEM reforça a projeção da zona como núcleo de serviços públicos qualificados (ao lado de organismos ligados à saúde, ciência e investigação). Mas, do lado dos trabalhadores, o cenário é bem mais sombrio: a perspetiva é de “êxodo” de profissionais e de fragilização direta da resposta de emergência no país.
Como a mudança afeta Oeiras (e Lisboa)
O plano em estudo prevê reunir em uma torre contígua ao COSUL, no Taguspark, a sede e um dos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), hoje espalhados por várias unidades em Lisboa. A justificação oficial é dupla: reforço de proximidade operacional com o 112 e substituição de edifícios considerados obsoletos em Lisboa.
Para o território, isso significaria:
- Mais postos de trabalho qualificados na área da saúde executiva e logística de emergência ancorados em Oeiras.
- Aumento de circulação e de serviços de apoio na zona do Taguspark, já habituado a receber grandes organismos públicos e privados.
Mas este crescimento “em papel” não é consensual entre quem faz o serviço.
Risco de êxodo de trabalhadores e impacto na resposta 112
A Comissão de Trabalhadores do INEM fez um levantamento interno que indica que cerca de 60 funcionários podem abandonar o instituto se a mudança para Oeiras se concretizar. Muitos vivem em Lisboa, Almada, Seixal, Alcochete e zonas do norte, onde o tempo de deslocação hoje já se situa perto de uma hora e 20 minutos; com Oeiras como destino, esse prazo poderia duplicar, chegando a 2h30 por viagem.
Isso não é apenas “incómodo pessoal”: num serviço onde cada minuto conta, a possibilidade de perda de profissionais qualificados no CODU, meios de regulação e serviços de apoio leva a CT a falar em “risco operacional sério e imediato” para a resposta de emergência pré‑hospitalar.
A comparação que os representantes dos trabalhadores fazem é com a migração do SEF para o Taguspark, que levou a um grande êxodo de funcionários e a falhas graves na capacidade do serviço, e temem que o mesmo filme se repita com o INEM. A mensagem política é clara: se a mudança desestabilizar o corpo profissional, o impacto será sentido primeiro nas ambulâncias, no 112 e na assistência aos utentes, mesmo que a nova sede esteja ótima em termos de infraestrutura.
Como Oeiras se posiciona
O município de Oeiras tem mantido um discurso de apoio à centralização de serviços públicos de qualidade na sua zona, valorizando o papel do Oeiras Valley como hub de inovação, ciência e funcionalização pública. A hipótese de sediar uma parte determinante da cadeia de resposta de emergência é apresentada como um reforço da função do concelho no sistema nacional de saúde e segurança.
No entanto, a camada de governação local deixa para a administração do INEM e para a tutela a gestão das consequências laborais e operacionais da mudança. O debate público, até agora, tem sido conduzido pelos trabalhadores, que insistem em exigir transparência, estudo de impacto e cenários alternativos antes de qualquer decisão irreversível.
O que está por vir
A CT sublinha que não se trata apenas de discutir “metros quadrados” ou paisagens de escritório: está em causa a sustentabilidade e a qualidade do serviço de emergência que chega a milhões de portugueses. Se a transferência avançar sem contrapartidas claras – seja em apoio à mobilidade dos trabalhadores, seja em medidas de retenção de talento – a futura sede do INEM em Oeiras pode ficar tecnicamente moderna, mas operacionalmente congelada, expondo o concelho e o país a fragilidades que agora ainda estão a tempo de ser evitadas.





















